Na Gamescom, que começou nessa semana em Colônia (Alemanha), o chefe da divisão de Xbox da Microsoft, Phil Spencer, deu uma entrevista à GameInformer falando sobre os desafios que a indústria de games enfrenta em torno da monetização, ou o processo de fazer dinheiro com seus produtos. Além das microtransações - prática que se tornou muito comum com o boom de jogos mobile e sociais - ele falou dos serviços de assinatura para jogos chamados "de catálogo", como o EA Access, anunciado também recentemente.
O EA Access é como um Netflix - o assinante paga uma taxa mensal e tem acesso a jogos disponibilizados pela publisher. Sony e Microsoft têm programas parecidos em seus sistemas, mas com dinâmicas diferentes. O sistema da EA é exclusivo do Xbox One, por enquanto.
Talvez esse seja um dos principais caminhos para a indústria reaproveitar seu imenso catálogo clássico, algo também necessário do ponto de vista do jogador. Serviços como o Netflix e o Amazon Prime (disponível nos Estados unidos) foram a solução encontrada pelas indústrias da TV e do cinema para reciclar seu material mais antigo, o que se provou um absoluto sucesso. É uma dinâmica simples - uma taxa mensal dá acesso ilimitado a um acervo que pode ser acessado de qualquer plataforma conectada à internet.
Há alguns agravantes se esse tipo de solução for transportada para os games. O primeiro é que existe a divisão por plataformas - cada uma necessitaria o seu próprio sistema. Além disso, há a questão das publishers. A EA criou seu próprio programa e disponibiliza apenas suas criações, fazendo com que os títulos das concorrentes não possam ser acessados. Esses dois fatores levam a um terceiro - um filme roda da mesma forma em um PC e em um tablet, mas com games a história é outra.
Sim, há muitos obstáculos para a implantação de um serviço de qualidade e preço satisfatório desse tipo nos games. Mas talvez essa seja uma das chaves para o problema da monetização, principalmente se os moldes desse sistema sair, digamos, "ao gosto do freguês".
Voltemos ao exemplo do Netflix. O preço é muito baixo para o que é oferecido. São US$ 9 nos Estados Unidos e R$ 20 no Brasil que conferem acesso a um acervo de obras de qualidade e é constantemente atualizado e até começou a receber produções próprias. Parte do sucesso do serviço se deve aos filmes clássicos que abriga e que chamam a atenção dos assinantes devido ao seu valor histórico. Obras de Quentin Tarantino, Clint Eastwood e outros diretores estão alocadas lá e sempre são opção para quem nunca assistiu, mas certamente ouviu sobre os filmes desses nomes.
Um serviço deste tipo na indústria dos games teria os mesmos interesses. Já existe uma cultura de títulos clássicos aos quais as novas gerações não tiveram acesso, mas sabem que existiram e são exaltados com frequência. Os próprios jogadores que viveram esses dias certamente passariam algumas horas revivendo-os. Por uma taxa semelhante à cobrada pelo Netflix, jogadores novos e antigos poderiam ter tudo isso em seus computadores ou consoles e, eventualmente, poderiam até mesmo jogar games exclusivos para esse serviço, caso ele existisse.
O dinheiro continua entrando, e por outro canal, e mais consumidores seriam atraídos. O catálogo está pronto - é uma questão de infraestrutura e problemas legais para fazer com que títulos de diferentes produtores sejam ofertados em conjunto, e talvez esses sejam os maiores impedimentos nessa indústria, mas se há algum exemplo a seguir, certamente sabe-se qual é.
Vale lembrar que televisão e cinema são indústrias muito mais maduras e antigas que os games e, embora tenham encontrado seu caminho nas novas mídias muito recentemente, lidam melhor com esse aspecto. O EA Access é um primeiro passo nesse sentido e deve fazer com que mais publishers e desenvolvedoras invistam nesse tipo de serviço, mas ainda há muito o que discutir sobre o assunto.
Certamente os próximos meses verão o tema evoluir, pois os videogames estão ficando para trás e precisam tirar o atraso aprendendo com indústrias mais antigas do entretenimento. Se os players querem aproveitar o que já têm para a monetização, sistemas de assinaturas que não abusem dos jogadores são uma alternativa viável. Todos têm a ganhar.
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